sábado, março 31, 2012

A bíblia conta a história de homens que também creram em Jesus, mas nem por isso se tornaram cristãos. Quando Jesus estava "em Jerusalém, na Festa da Páscoa, muitos viram os sinais miraculosos que ele estava realizando e creram em seu nome. Mas Jesus não se confiava a eles, pois conhecia a todos" (Jo 2.23,24). Em outras palavras, crer no poder e na autoridade do nome de Jesus não faz de ninguém cristão.


Receio que este mesmo fenômeno esteja acontecendo hoje na cristandade. As pessoas estão descobrindo que Jesus é maior do que os exus, tranca-ruas e outros bichos, e saem por aí declarando, com toda a razão, que Jesus Cristo é o Senhor. Mas acontece que querem se relacionar com Jesus como se relacionavam  com os demônios ou santos de devoção, isto é, pela via das promessas, penitências, sacrifícios e ofertas. Acreditam que Deus abençoa quem se sacrifica, honra quem persevera e abomina quem retrocede. Julgam que podem comprar o dom de Deus e caminham para a perdição, a exemplo do pseudocristão chamado Simão (Atos 8).

Seja sobre nós o Espírito de toda verdade, e faça triunfar no Brasil o Evangelho da Graça de Deus.



# OUTRA ESPIRITUALIDADE # Ed René Kivitz

sexta-feira, março 30, 2012

"O inferno, ainda que imperfeitamente, imita o poder de Deus, mas jamais é capaz de um mínimo gesto de amor." [Ed René Kivitz]

quinta-feira, março 29, 2012

"Nem todos os pais são bons pais, ou nasceram para serem pais de verdade. Nem todos os amigos, vizinhos, parentes, professores ou autoridades nos amam e nos protegem. Nem todos os líderes são honrados. Nem todos os patrões são justos.
Nem todos os que convivem conosco são boas pessoas, nem todos são preparados para sua função, nem todos são saudáveis. A cautela, irmã do discernimento, reforça aquele chão mais seguro sobre o qual andamos. Quem nos poderia incutir esses conceitos e treinar nossas emoções seriam os pais. Mas, em lugar deles, como disse um jovem psicólogo, os meninos vão encontrar em casa um gatão e uma gatinha, sem capacidade de lhes dar a segurança do afeto e da autoridade, que preparariam para a realidade nem sempre gentil."



# MÚLTIPLA ESCOLHA # by Lya Luft

quarta-feira, março 28, 2012

Sobre a oração

Orar não é uma atividade que visa mover a mão de Deus, não é um recurso para colocar Deus em movimento, uma vez fustigado pela fé, como se ele fosse um irresponsável indolente, sentado sobre um trono de má-vontade. Jesus ensinou que seu Pai trabalha até hoje.

Orar é estar com Deus a portas fechadas para que ele, que nos vê em secreto, dê a recompensa. A recompensa da oração não depende da agenda de quem ora, mas do amor, da misericórdia e da bondade eterna de Deus, que em sua plena sabedoria e soberania distribui aos seus filhos boas dádivas e dons perfeitos.

Outra coisa que discerni foi que o chamado à oração não era uma exortação a falar com Deus, mas meramente estar em silêncio em sua presença. Sempre me chamou à atenção de que no quarto, a portas fechadas, Deus não ouve o que dizemos, mas nos vê: a oração é muito mais uma atitude de entrega, rendição e disponibilidade do que um monólogo piedoso diante de Deus. Talvez por esta razão, Jesus tenha dito que o Filho não pode fazer nada, exceto aquilo que vê o Pai fazer.
Mais uma vez, faz sentido, pois se o Pai está trabalhando, então devemos esperar que ele mesmo decida a recompensa e nos chame a cooperar com sua obra.

Quem não ora, não colabora. E quem ora somente através das palavras também não colabora -- espera colaboração.



# OUTRA ESPIRITUALIDADE # Ed René Kivitz

terça-feira, março 27, 2012

Até quando?

Não me conformo com a instituição que evoca os simbolismos do sincretismo religioso popular e convoca pessoas para "marchar sobre o vale do sal", participar de "sessões de descarrego" e receber "tratamento espiritual de ex-bruxas" para que se vejam livres de demônios e maldições.
Certo dia, um dos pseudopastores recomendou que uma senhora aflita escrevesse seu nome sete vezes em sete papeizinhos que deveriam ser depositados no vale do sal, sendo este o melhor tratamento do Brasil para o problema que ela estava enfrentando.

Até quando vamos chamar de "cristãos" essa gente? Eles inventaram outra religião. Abandonaram o cristianismo. Não falam de Cruz de Cristo e do poder do Espírito Santo como solução para toda e qualquer escravidão espiritual, mas inventam a cada dia nova amarração simbólica que perpetua a escravidão, que se faz dupla: aos demônios e aos religiosos.
Não falam do discipulado de Jesus Cristo como compromisso com o Reino de Deus, o que exige arrependimento (expansão da consciência) e submissão absoluta ao Rei Eterno, o que implica mudança de vida e serviço abnegado. Não apresentam o Evangelho sem engano e sem dolo, mas uma distorção das Escrituras já denunciada pelo padre Antônio Vieira, quando afirmou que "a palavra de Deus apresentada com sentido inverso ao pretendido por Deus ao proferi-la não é Palavra de Deus; é palavra do Diabo".

Tenha Deus misericórdia de nós.



# OUTRA ESPIRITUALIDADE # by Ed René Kivitz


"E conhecerão a Verdade e a Verdade vos libertará. Portanto se o Filho os libertar, vocês de fato serão livres." João 8.32,36

segunda-feira, março 26, 2012

"Os verdadeiros amigos não são aqueles que nos dão tapinhas nas costas e vivem alimentando nossos egos falsos. Amigo é aquele que nos ajuda a enxergar a verdade a respeito de nós mesmos. Amigo é quem nos coloca de frente para o espelho. Isto exige honestidade, coragem, aceitação, perdão, encorajamento na direção da transformação, disposição de permanecer ao lado, caminhando junto depois que cai o pano."



# OUTRA ESPIRITUALIDADE # Ed René Kivitz
"Porque entre o sim e o não é só um sopro, entre o bom e o mau apenas um pensamento, entre a vida e a morte só um leve sacudir de panos - e a poeira do tempo, com todo o tempo que eu perdi, tudo recobre, tudo apaga, tudo torna tão simples e tão indiferente."



# O SILÊNCIO DOS AMANTES # by Lya Luft

domingo, março 25, 2012

Quem é você?

"Quando olha bem no íntimo
Através do teu sorriso
O que será que Deus vê?
Bem além da tua lógica
Bem atrás de toda estética
O que será que Deus vê?
Um coração aflito, um espírito ferido
E uma alma já cansada de representar
Alguém desconfiado, sem um verdadeiro amigo
A quem possa se abrir sem se envergonhar
Quando Deus te investiga
Bem no âmago da vida
Lá no teu eu verdadeiro
É que ele quer por inteiro
Transformar a tua essência
Num batismo de alegria
Verdadeiramente livre te fazer." [Alisson]

Citado no livro Outra Espiritualidade de Ed René Kivitz

sábado, março 03, 2012

Julgar x Discernir



Não julgar para não ser julgado. Esta recomendação de Jesus tem sido mal interpretada. A maioria usa para refrear opiniões a respeito de outras pessoas. Contudo não é isso que Jesus pretende. Na verdade, ele recomenda que se tenha opinião a respeito dos outros. Ele insiste na necessidade de observar e chegar a conclusões a respeito dos outros. E no mesmo texto que recomenda o não-julgamento. Adverte que devemos tomar cuidado com os falsos profetas, que se aproximam disfarçados de ovelhas, mas que, na verdade, são lobos selvagens. Para discernir um lobo vestido de ovelha é necessária boa observação. Somente quem presta atenção no outro consegue ver que ele é algo diferente do que pretende fazer parecer. Desmascarar é diferente de julgar. Desmascarar é necessário à sobrevivência espiritual. Seguir um lobo é perigoso. Cair na conversa de um lobo é fatal. Lobos são letais. Julgar é estabelecer veredictos, determinar sentenças, prescrever penalidades. Julgar é prerrogativa divina. Observar para discernir e desmascarar é responsabilidade humana.



# OUTRA ESPIRITUALIDADE # by Ed René Kivitz

sexta-feira, março 02, 2012

Meu amigo divulgou, outro dia, um texto onde desabafou: "Não quero mais ser evangélico".
Pedindo licença, digo que agora é a minha vez: "Quero voltar a ser cristão".



# OUTRA ESPIRITUALIDADE # by Ed René Kivitz

quinta-feira, março 01, 2012

Santo remédio

Quase ninguém sabe o que é benzilpenicilina benzatina, mesmo os que já sofreram na ponta da agulha de um Benzetacil. E o que dizer do bromazepan, cujo nome de guerra é Lexotan! Sabe quem é o brometo de n-butilescopolamina? Nada mais, nada menos do que o Buscopan. E se você preferir o Buscopan Composto, basta chegar na farmácia e pedir brometo de n-butilecopolamina com dipirona sódica. O aciclovir é mais conhecido como Zovirax, e o cloridrato de fluoxetina é o famosíssimo Prozac. Jamais viajo sem a companhia de mucato de isometepteno mais dipirona sódica mais cafeína anidra: a Neosaldina.

O evangelho é um santo remédio. Bem, pelo menos, costumava ser. Ou melhor, ainda é, caso estejamos falando do genérico. Sim, porque os laboratórios eclesiásticos institucionais empacotaram a essência de maneira a torná-la mais atraente e, nessa manipulação das substâncias, o conteúdo do evangelho foi alterado. Até porque mais vale a embalagem e o marketing do que o remédio em si. Fiz uma pequena pesquisa no mercado e encontrei o genérico Evangelho empacotado em diversas versões. Uma pior do que a outra, mas todas muito populares.

Encontrei o Evangelho versão incorporação. A receita diz que o usuário deve esvaziar-se completamente de suas responsabilidades pessoais para tornar-se gradativamente um mero instrumento despersonalizado das forças espirituais. A fórmula foi muito usadanos terreiros de macumba e centros espíritas, adotadas pelos "cavalos" e "cambonos", e depois foi adotada por setores da Igreja Evangélica que acreditam que o ideal de intimidade com Deus e desempenho ministerial é a completa anulação de si mesmo  em sujeição ao Espírito-espíritos. Ao usar o Evangelho versão incorporação, o usuário passa a justificar todas as coisas pela ação direta do Espírito Santo - ou outro espírito, sabe-se lá: "Foi o Espírito quem mandou", "Foi o Espírito quem disse", "Foi o Espírito quem me conduziu", e outras coisas, como se o Espírito Santo tivesse baixado no sujeito, da mesma forma que nos terreiros baixa o santo.

Encontrei também o Evangelho versão segregação. Esse aí, muito caro. Usado apenas por uma casta muito especial de favorecidos por Deus: os filhos do Rei. Os usuários do Evangelho de segregação proclamam que as riquezas do mundo pertencem a Deus e a seus filhos, e foram usurpadas pelo Diabo e pelos ímpios. Acreditam que, após algumas doses regulares, geralmente tomadas em correntes e vigílias, os favorecimentos divinos vão sendo canalizados na direção deles, e somente deles. Dizem que o pão é nosso, mas "nosso" significa "nosso, dos crentes". A fórmula foi emprestada dos regimes totalitários, em que as benesses sociais são acessíveis apenas aos que são leais ao poder estabelecido, e os "rebeldes" são espoliados em favor de uma minoria. Diversos segmentos da Igreja Evangélica acreditam que Deus existe para satisfazer os seus, e o mundo existe para ser saqueado.

Há também o Evangelho de mediação. Este é administrado apenas nas farmácias espirituais certas, em sujeição aos enfermeiros espirituais certos. Sua fórmula foi desenvolvida na tradição do catolicismo romano pós-Constantino, e está baseada no "institucionalismo hierarquizado", muito popular nos grandes impérios eclesiásticos centrados nas figuras carismáticas de seus fundadores e proprietários. Desde os tempos da Idade Média, quando bastava ser nascido dentro das fronteiras  do império para ser considerado cristão, há segmentos da Igreja Evangélica que acreditam que a relação com Deus é subproduto da correta identificação institucional. A propaganda deste remédio não fala mais de antes de depois do Evangelho, antes e depois de Cristo, mas de antes e depois da igreja A ou B, antes e depois da unção do bispo, do missionário e do apóstolo.

Já deparei também com o Evagelho versão sacramentalismo. Este remédio é administrado com dia e hora marcados, aliás, como a maioria dos remédios. Para ter acesso a uma dose, o usuário deve comparecer às atividades propostas pela autoridade clínica: a igreja e seu respectivo guru. Justiça seja feita, ninguém fica sem uma dose. Basta ligar o rádio e a TV, e logo os usuários ficam sabendo onde será e quando começa a próxima corrente da fé, a campanha da vitória, a noite do milagre, o dia do santo jejum e por aí vai. Quem não estiver lá, perde a dose. Fica sem o remédio. A fórmula foi desenvolvida também na cultura da Santa Missa - sacramento que supõe transferir graça - e adotada por segmentos da Igreja Evangélica que acreditam que a participação na ciranda do culto é a principal fonte de benefício espiritual para os fiéis. E fonte de enriquecimento para a indústria farmacêutica espiritual, é claro.



# OUTRA ESPIRITUALIDADE # by Ed René Kivitz