Decisões são difíceis por muitas razões, e algumas atingem o próprio cerne da existência.
John Gardner, em seu romance Grendel, fala de um homem sábio que resume suas meditações sobre os mistérios da vida em dois postulados simples, mas terríveis: "As coisas desaparecem gradualmente: as alternativas se excluem." O segundo, "as alternativas se excluem", é uma chave importante para compreendermos por que a decisão é tão difícil. A decisão invariavelmente envolve renúncia: para cada sim deve haver um não, cada decisão elimina, ou mata, outras opções (as raízes da palavra decidir significa "matar", como em homicídio ou suicídio).
# O CARRASCO DO AMOR # by Irvin D. Yalom
terça-feira, janeiro 31, 2012
segunda-feira, janeiro 30, 2012
domingo, janeiro 29, 2012
Um bom senso um tanto diferente
O Eclesiastes não parece muito ortodoxo quando ouvimos com ouvidos honestos seus ensinamentos. Algumas de suas ideias ferem o bom senso comum. Talvez porque o bom senso do Eclesiastes tenha mais senso do que o nosso bom senso. Ele não vive de ilusões. É um sujeito que trabalha e empreende, que olha para o céu e diz: "Deus, há muita coisa que eu não sei, não controlo e não posso mudar. Mas sei que o futuro não está pronto e que tenho que arregaçar as mangas e semear. E sei também que o Senhor tem seus caminhos. Não sei quais são esses caminhos, mas minha vida está nas suas mãos. Agora estou me levantando para ir trabalhar."
# O LIVRO MAIS MAL-HUMORADO DA BÍBLIA # by Ed René Kivitz
sábado, janeiro 28, 2012
sexta-feira, janeiro 27, 2012
"A mudança sempre traz medo antes de produzir fé.
Sempre esperamos pelo pior antes de ver o melhor.
Deus interrompe nossa vida com algo que nunca vimos e, em vez de louvá-lo, entramos em pânico!
Interpretamos a existência de um problema como ausência de Deus e fugimos!"
# SEU NOME É JESUS # by Max Lucado
Sempre esperamos pelo pior antes de ver o melhor.
Deus interrompe nossa vida com algo que nunca vimos e, em vez de louvá-lo, entramos em pânico!
Interpretamos a existência de um problema como ausência de Deus e fugimos!"
# SEU NOME É JESUS # by Max Lucado
quinta-feira, janeiro 26, 2012
Quem vive de exceções, sempre à busca de milagres, quer subjugar Deus pela força. Mas Deus não é um mero entregador de soluções em domicílio.
Prefiro viver na confiança que trabalha do que na dependência que espera o milagre.
Prefiro trabalhar confiando em Deus, caminhar de gratidão em gratidão.
Sou grato quando Deus faz coisas surpreendentes para mim, mas assumo responsabilidades em vez de colocar o peso das obrigações nas costas dele. Vivo na confiança, deixo de lado as exceções e me submeto a Deus acatando as regras que ele mesmo estabeleceu para o jogo. É assim que funciona.
Em outras palavras, sigo o velho conselho da sabedoria cristã: "Ore como se tudo dependesse de Deus, trabalhe como se tudo dependesse de você". Portanto, arrisque, reparta e trabalhe com fé.
# O LIVRO MAIS MAL-HUMORADO DA BÍBLIA # by Ed René Kivitz
Prefiro viver na confiança que trabalha do que na dependência que espera o milagre.
Prefiro trabalhar confiando em Deus, caminhar de gratidão em gratidão.
Sou grato quando Deus faz coisas surpreendentes para mim, mas assumo responsabilidades em vez de colocar o peso das obrigações nas costas dele. Vivo na confiança, deixo de lado as exceções e me submeto a Deus acatando as regras que ele mesmo estabeleceu para o jogo. É assim que funciona.
Em outras palavras, sigo o velho conselho da sabedoria cristã: "Ore como se tudo dependesse de Deus, trabalhe como se tudo dependesse de você". Portanto, arrisque, reparta e trabalhe com fé.
# O LIVRO MAIS MAL-HUMORADO DA BÍBLIA # by Ed René Kivitz
quarta-feira, janeiro 25, 2012
terça-feira, janeiro 24, 2012
"A liberdade significa que a pessoa é responsável por suas próprias escolhas, ações e condição de vida.
Embora a palavra responsável possa ser utilizada de várias maneiras, prefiro a definição de Sartre: ser responsável é 'ser o autor de', cada um de nós sendo assim o autor de seu próprio plano de vida. Nós somos livres para sermos qualquer coisa, exceto não livres - nós estamos, diria Sartre, condenados à liberdade." [Irvin D. Yalom]
sábado, janeiro 21, 2012
A história da vinha
A vida está cheia de coisas que deveriam ter sido, mas não foram, e outras que jamais deveriam ter sido e foram. Se é verdadeiro que há muitas coisas que não podemos mudar, também é certo que há muita coisa que poderíamos ter mudado.
Exemplo disso é a profecia de Isaías. O profeta conta a história do seu amigo que plantou uma vinha imaginando o dia em que colheria uvas boas (Is 5.1-2). Escolheu solo fértil, cavou a terra, tirou as pedras, usou as melhores mudas, enfim, fez tudo o que era necessário para colher as melhores uvas. Mas o resultado foi o contrário do esperado. A vinha produzia uvas azedas. O amigo do profeta é Deus. Ele não pode ser acusado de fazer mal feito. A dureza no coração humano frustrou as expectativas divinas. Deus fez a parte dele. Mas a vida tem outra variável: o ser humano criado livre. O futuro não é necessariamente definido por Deus. Deve ser também construído. Sem a ação humana não há futuro. Quem afirma resignadamente "o que tem de ser será" está mais próximo de horóscopo do que da Bíblia. Decidir é fazer história.
# O LIVRO MAIS MAL-HUMORADO DA BÍBLIA # by Ed René Kivitz
sexta-feira, janeiro 20, 2012
quinta-feira, janeiro 19, 2012
"Mas é notável quando a pessoa de fé diz 'Graças eu te dou, ó Deus, pelo pão sobre a minha mesa', enquanto a pessoa que não vive da fé precisa dizer 'Eu conquistei esse pão'. A vida é muito diferente para quem vive de dádivas divinas e para quem vive de esforço próprio e de conquistas." [Ed René Kivitz]
quarta-feira, janeiro 18, 2012
"Há pessoas que parecem ter nascido mal-equipadas para viver. O mais terno desvelo as incomoda, qualquer afeto desperta suspeitas, talvez se agarrem a fetiches para enfrentar terrores incompreensíveis para os demais. Nasceram sem a proteção da pele: o doce ar da manhã lhes abrirá feridas. São constantemente sugadas para baixo, para alguma escuridão escancarada, por forças que não se deixam definir nem, por isso mesmo, combater com eficiência. Não sabemos ao certo quem é o inimigo, não vemos seu rosto.
Quem estiver ligado a uma pessoa assim conhecerá uma das mais dolorosas e difíceis experiências: a impotência para evitar que alguém amado se aniquile."
# O RIO DO MEIO # by Lya Luft
terça-feira, janeiro 17, 2012
Tomem cuidado com o poderoso apego exclusivo a uma outra pessoa; ele não é, como algumas pessoas pensam, evidência da pureza do amor. Esse amor encapsulado, exclusivo -- alimentando-se de si próprio, não dando nem se importando com os outros --, está destinado a desmoronar sobre si mesmo. O amor não é apenas uma centelha de paixão entre duas pessoas; há uma distância infinita entre se apaixonar e permanecer apaixonado. Mais propriamente, o amor é um modo de ser, um "dar a", não um "enamorar-se"; um modo de se relacionar como um todo, não um ato limitado a uma única pessoa.
# O CARRASCO DO AMOR # by Irvin D. Yalom
segunda-feira, janeiro 16, 2012
Não depois, mas enquanto
Tentar enxergar o sentido por trás das coisas é um exercício que consome muita energia e dá pouco resultado. Boa parte das conclusões a que chegamos não passa de especulação. Fazemos alguma coisa e esperamos que a gratificação venha depois, mas ela normalmente não vem. Acontece conosco, aconteceu com o Eclesiastes. Por quê? Porque a felicidade não é no depois: é no durante, é no enquanto.
A porta de saída desse enigma do Eclesiastes está dentro do próprio texto:
"Na verdade, eu me alegrei em todo o meu trabalho. Essa foi a recompensa de todo o meu esforço" (2.10)
Viver o enquanto é uma atitude que nos devolve à vida. Quando você assiste a um filme, seu prazer está no filme, não no depois do filme. Quando você está com fome, seu prazer dura enquanto você está comendo. Depois de se alimentar, não há mais prazer na comida. A roda de amigos, cheia de risadas e camaradagem, é prazerosa enquanto dura a roda. Depois que cada um toma seu rumo, o efeito das risadas se dissipa, e se instala a saudade, que para alguns é um tipo de prazer e felicidade. Quando você dá um abraço apertado no seu filho, aquela sensação de pertencimento deve ser desfrutada enquanto você o está abraçando.
Viva sua porção de felicidade enquanto estiver fazendo alguma coisa: ficar esperando uma gratificação posterior é ilusão, é correr atrás do vento.
Viver o enquanto é a "arte de presentificar a vida", fazendo assim, você volta para a vida, você a vive na hora certa, e vai se alegrar com seu trabalho, porque isso vem da mão de Deus.
# O LIVRO MAIS MAL-HUMORADO DA BÍBLIA # by Ed René Kivitz
domingo, janeiro 15, 2012
quinta-feira, janeiro 12, 2012
O que desconhecemos não invalida aquilo que sabemos. O que sabemos, não perde a eficácia "só" porque não sabemos tudo o que queremos saber. É muito fácil nos perdermos na selva densa formada por nossas dúvidas teológicas, filosóficas e psicológicas. Não bastasse isso, uma selva se entrelaça com a outra.
No entanto, há uma área na qual não temos dúvida, que é o campo da moral. Talvez eu não saiba por que seu marido ficou desempregado, mas eu sei que ele não deve roubar enquanto não consegue arrumar outro emprego. Não podemos mentir para arrumar emprego, não podemos descontar com violência nossa frustração em cima de amigos, esposa, marido e filhos. Não podemos. Há tanto que desconhecemos, especialmente em tempos tão contubardos e de desenvolvimento científico e tecnológico tão acelerado, mas sabemos que precisamos confiar em Deus e andar à luz da nossa consciência:
"Amados, sabendo disso, guardem-se para que não sejam levados pelo erro dos que não tem princípios morais, nem percam sua firmeza e caiam" (2Pe 3.17)
Quando deixamos de proceder corretamente, descontando no mundo a raiva que sentimos desse mundo sem sentido, exibimos nossa insensatez, nossa vaidade, para todos os que nos cercam. A limitação da dúvida nunca justifica a autolimitação moral. A despeito de tudo o que não compreendemos, via de regra sabemos pelo menos como proceder.
# O LIVRO MAIS MAL-HUMORADO DA BÍBLIA # by Ed René Kivitz
quarta-feira, janeiro 11, 2012
"Porém uma ligação amorosa é uma longa elaboração: enfrenta toda uma série de transformações de parte a parte. Mudamos e os parceiros não mudam necessariamente no mesmo ritmo, com a mesma intensidade ou no mesmo sentido.
O instinto e o afeto é que fazem com que os bons casais, os casais amorosos, usem dessas fases de crise para se renovar e crescer, se possível juntos. Desde que o instinto seja saudável, o afeto seja bom, a personalidade aberta.
Não há receita. Não há escola. Não há manual."
# O RIO DO MEIO # by Lya Luft
terça-feira, janeiro 10, 2012
Fábula da Coletividade
Uma senhora vivia numa pequena chácara e tinha alguns animais: uma vaca, um porco, uma galinha. E lá também guardava milho na tulha. E havia um rato que morava lá. Esse rato vivia sossegado até o dia em que a mulher resolveu colocar uma ratoeira dentro da tulha. O rato saiu desesperado. Correu até a vaca:
- Vaca, nós estamos com um problema sério; a mulher colocou uma ratoeira lá.
A vaca deu risada:
- Como nós? Você já viu ratoeira pegar vaca? Eu não tenho nada com isso. Isso é problema seu.
E saiu ruminando. O rato correu até o porco:
- Porco, nós estamos com uma encrenca danada, a mulher colocou uma ratoeira lá.
- O que é isso? Eu estou aqui bem longe, isso não vai me pegar, não. Ratoeira não pega porco, olha o meu tamanho e olha o seu. O problema é seu.
O rato, atônito, correu para a galinha:
- Galinha, nós estamos com um problema muito sério.
- Pelo amor de Deus, eu já estou de problema por aqui e você ainda vem me torturar. O máximo que eu posso fazer é rezar por você.
- Mas tem uma ratoeira lá.
- Mas isso não é comigo, é contigo.
O rato foi embora desanimado. À noite todos dormiram e, de repente, splaft. A ratoeira desarmou. Todos correram para olhar, inclusive o rato; era uma cascavel que tinha sido pega na ratoeira. A mulher levantou-se, foi tirar a cascavel da ratoeira e tomou uma picada. Foi levada ao hospital à morte. Ficou vinte dias de recuperação e, na volta, precisava restabelecer a saúde na chácara. Qual a melhor comida para reforçar a saúde? Canja. Lá se foi a galinha. Depois de um mês, resolveu dar um almoço com feijão tropeiro para os parentes que a tinham ajudado e lá se foi o porco. A questão é que o tratamento tinha ficado caro e aí tiveram de vender a vaca para um açougue...
Cuidado: a ratoeira que aparece ali num canto pode não te pegar num primeiro momento, mas os efeitos dela são fortíssimos. A nossa arrogância é tamanha que nos consideramos proprietários do planeta, assim como alguns se consideram proprietários daquela diretoria, daquela área. Nós não somos proprietários, somos usuários compartilhantes.
# QUAL É A TUA OBRA? # by Mário Sérgio Cortella
segunda-feira, janeiro 09, 2012
Uma pessoa inteira
Integridade é o princípio ético para não apequenar a vida, que já é curta.
Benjamim Disraeli, grande primeiro-ministro do Reino Unido durante o reinado da Rainha Vitória, proferiu uma frase de que gosto muito: "A vida é muito curta para ser pequena".
Integridade é o princípio ético para não apequenar a vida, que já é curta. Integridade é a capacidade de saber que "eu morro louco, mas ninguém arranca a minha inteireza". Integridade é honestidade, é sinceridade. Há pessoas que falam: "Mas isso no nosso país? Só um otário é honesto, íntegro e sincero". Essa é uma escolha.
Você obtém um pouco de sossego mental quando aquilo que você quer é também o que você deve e é aquilo que você pode. Quanto mais claros os princípios, mais fácil fica lidar com os dilemas. Você não deixa de ter dilemas, mas é preciso ter como razão central a integridade. O que é uma pessoa íntegra? É uma pessoa correta, justa, honesta, que não se desvia do caminho. É uma pessoa que não tem duas caras. Qual a grande virtude que uma pessoa íntegra tem? Ela é sincera.
De onde vem a palavra sinceridade? Ela tem várias acepções, porém a mais recente tem a ver com marcenaria. No século XIX, quando o marceneiro, ao trabalhar com aqueles móveis chamados coloniais, errava com o formão, ele pegava cera de abelha e passava naquele lugar para disfarçar o erro. Sine cera significava "sem cera", uma pessoa sincera é aquela que não disfarça o erro, ela assume. Em vez de fazer de novo, ele finge que está certo passando cera de abelha. É igual a certas pessoas que, quando vão mudar de casa, pegam pasta de dente e colocam em todos os furos de quadro para fazer uma maquiagem.
Ética não é cosmética. Ética é sinceridade. Sabe de onde vem a expressão original "sincera"? No latim sine cera, sem cera, vem da criação de abelhas. Qual é o mel puro, o da geleia real? É o mel sem cera. A noção de pureza está aí.
Mas ela vem do teatro também. O mundo romano herdou parte dos princípios do teatro grego. No teatro grego, na Antiguidade Clássica, de 2.500 anos atrás, havia uma situação muito interessante: todas as vezes que uma peça seria representada, os atores eram sempre homens, não havia espaços para mulheres. Para que um ator pudesse fazer vários papéis, inclusive os femininos, eles construíam uma máscara feita de argila que seguravam na frente do rosto com uma varetinha. Que nome os latinos deram a essa máscara dos gregos? Persona. Daí vieram "personagem" ou "personalidade".
Aliás, tem gente que usa várias dessas máscaras. Deixa em casa uma e sai com outra. Se comporta no trabalho de um jeito e, em casa, de outro. Ele não admite, em casa, que a empregada doméstica se atrase um minuto, mas pouco se incomoda se ele mesmo atrasar. Ele acha que na empresa tem que ter mais participação das pessoas, quer participar das decisões de um determinado patamar da hierarquia para cima, mas não acha que deva haver democracia dali para baixo. "Inclusive esse povinho, se você não vai tomar cuidado, você dá a mão, eles querem o braço e depois arrancam tudo." É aquele cara que está com uma persona vendo televisão e fala: "Mas que horror, que nojo essa novela, só prostituição". Mas ele mesmo, no trabalho, dá uma "cantada" na secretária.
Os romanos herdaram do teatro grego essa ideia de homens representando todos os papéis, mas, em vez de construírem máscaras de argila, adotaram outra técnica: eles pegavam cera de abelha, misturavam com pigmentos vegetais e faziam uma pasta, que era passada no rosto. É por isso que uma pessoa sincera é uma pessoa sem máscara, que não tem duas caras, é aquela que não fala uma coisa e pensa outra, é aquela que não diz uma coisa e pensa de outro modo. A sinceridade é, de fato, um dos elementos constitutivos da integridade.
Uma das coisas que eu mais temo quando se tem um debate ético é a chamada adesão cínica. É quando o sujeito diz: "Nós temos de discutir ética, esse país só vai para a frente com ética". Mas, ele mesmo, no dia a dia, comporta-se da seguinte maneira: "Isso é bobagem. O mundo é competitivo, a regra básica é cada um por si e Deus por todos. Cada um tem de se virar, senão a gente dança". Esse tipo de adesão cínica é muito perigoso.
Eu prefiro o mentiroso ao cínico. Porque o mentiroso é alguém que você captura a mentira dele, mas o cínico finge o tempo todo. E esse é o tipo mais deletério, porque dá a impressão de que está aderindo e, como não está, enfraquece a corrente daqueles que acham que a vida é muito curta para ser pequena.
# QUAL É A TUA OBRA? # by Mário Sérgio Cortella
De onde vem a palavra sinceridade? Ela tem várias acepções, porém a mais recente tem a ver com marcenaria. No século XIX, quando o marceneiro, ao trabalhar com aqueles móveis chamados coloniais, errava com o formão, ele pegava cera de abelha e passava naquele lugar para disfarçar o erro. Sine cera significava "sem cera", uma pessoa sincera é aquela que não disfarça o erro, ela assume. Em vez de fazer de novo, ele finge que está certo passando cera de abelha. É igual a certas pessoas que, quando vão mudar de casa, pegam pasta de dente e colocam em todos os furos de quadro para fazer uma maquiagem.
Ética não é cosmética. Ética é sinceridade. Sabe de onde vem a expressão original "sincera"? No latim sine cera, sem cera, vem da criação de abelhas. Qual é o mel puro, o da geleia real? É o mel sem cera. A noção de pureza está aí.
Mas ela vem do teatro também. O mundo romano herdou parte dos princípios do teatro grego. No teatro grego, na Antiguidade Clássica, de 2.500 anos atrás, havia uma situação muito interessante: todas as vezes que uma peça seria representada, os atores eram sempre homens, não havia espaços para mulheres. Para que um ator pudesse fazer vários papéis, inclusive os femininos, eles construíam uma máscara feita de argila que seguravam na frente do rosto com uma varetinha. Que nome os latinos deram a essa máscara dos gregos? Persona. Daí vieram "personagem" ou "personalidade".
Aliás, tem gente que usa várias dessas máscaras. Deixa em casa uma e sai com outra. Se comporta no trabalho de um jeito e, em casa, de outro. Ele não admite, em casa, que a empregada doméstica se atrase um minuto, mas pouco se incomoda se ele mesmo atrasar. Ele acha que na empresa tem que ter mais participação das pessoas, quer participar das decisões de um determinado patamar da hierarquia para cima, mas não acha que deva haver democracia dali para baixo. "Inclusive esse povinho, se você não vai tomar cuidado, você dá a mão, eles querem o braço e depois arrancam tudo." É aquele cara que está com uma persona vendo televisão e fala: "Mas que horror, que nojo essa novela, só prostituição". Mas ele mesmo, no trabalho, dá uma "cantada" na secretária.
Os romanos herdaram do teatro grego essa ideia de homens representando todos os papéis, mas, em vez de construírem máscaras de argila, adotaram outra técnica: eles pegavam cera de abelha, misturavam com pigmentos vegetais e faziam uma pasta, que era passada no rosto. É por isso que uma pessoa sincera é uma pessoa sem máscara, que não tem duas caras, é aquela que não fala uma coisa e pensa outra, é aquela que não diz uma coisa e pensa de outro modo. A sinceridade é, de fato, um dos elementos constitutivos da integridade.
Uma das coisas que eu mais temo quando se tem um debate ético é a chamada adesão cínica. É quando o sujeito diz: "Nós temos de discutir ética, esse país só vai para a frente com ética". Mas, ele mesmo, no dia a dia, comporta-se da seguinte maneira: "Isso é bobagem. O mundo é competitivo, a regra básica é cada um por si e Deus por todos. Cada um tem de se virar, senão a gente dança". Esse tipo de adesão cínica é muito perigoso.
Eu prefiro o mentiroso ao cínico. Porque o mentiroso é alguém que você captura a mentira dele, mas o cínico finge o tempo todo. E esse é o tipo mais deletério, porque dá a impressão de que está aderindo e, como não está, enfraquece a corrente daqueles que acham que a vida é muito curta para ser pequena.
# QUAL É A TUA OBRA? # by Mário Sérgio Cortella
sexta-feira, janeiro 06, 2012
Pare de fazer o possível. Faça o seu melhor!
Nós, brasileiros, temos um vício, que é muito perigoso, de nos contentar muitas vezes com o possível, em vez de procurarmos o melhor. Por exemplo, você chega ao mecânico: "O meu carro está com um problema, estou ouvindo um barulho". Ele fala: "Vou fazer o possível". Você fica desanimado, mas aceita.
Nessas horas, temos de aprender com os norte-americanos. Não devemos aprender tudo com eles, nem devemos rejeitar tudo o que vem deles. Mas quando se pede algo a um norte-americano, ele diz: I will do my best ou "Vou fazer o meu melhor". Não é uma diferença de idioma, é uma diferença de atitude. Há uma diferença estupenda entre o possível e o melhor. Num mundo competitivo, para caminhar para a excelência é preciso fazer o melhor, em vez de contentar-se com o possível. Fazer o possível é o óbvio. Agora, fazer o melhor é exatamente aquilo que cria a diferença. Se o mecânico responde: "Vou fazer o meu melhor", você já se anima, confia.
Imagine você, submetido a uma cirurgia de extirpação do apêndice, e deitado, olhando para o médico a caminho do centro cirúrgico:
- Doutor, vai dar certo minha cirurgia?
- Vou fazer o possível.
Nessa hora você quase falece. Agora pense em como se sentiria se a resposta fosse ligeiramente diferente:
- Doutor, vai dar tudo certo?
- Vou fazer o meu melhor.
Já imaginou? E essa busca pelo melhor exige humildade e exige que coloquemos em dúvida as práticas que nós já tínhamos.
Porque se as práticas que tínhamos e temos no dia a dia fossem melhores, já estaríamos melhor.
# QUAL É A TUA OBRA? # by Mário Sérgio Cortella
quinta-feira, janeiro 05, 2012
Cuidado com a satisfação
Gente que concorda com tudo o que você faz ou não gosta de você ou começou a se preparar para o derrubar. Porque gente que lhe respeita discorda de você quando tem que discordar. Do contrário, você não consegue crescer. Um concorrente burro te emburrece. Um adversário fraco o enfraquece, porque ele o deixa satisfeito e tranquilo em relação à situação. E essa é uma coisa muito séria.
Eu tenho um colega na PUC-SP. E a gente se "odeia" há trinta anos. Tudo o que eu escrevo, ele escreve contra e vice-versa. Eu lanço um livro, ele fala mal. Ele vai disputar um cargo, eu disputo também. Toda semana a gente se encontra e almoça junto. Sabe por quê? Porque ele me faz crescer, ele discorda de mim, ele consegue fazer com que eu melhore. Em Outubro de 2005, lancei o livro Não espere pelo epitáfio - Provocações filosóficas no auditório do Sesc da Avenida Paulista em São Paulo, em evento conjunto com Leonardo Boff (quando ele lançou a magnífica trilogia Virtudes para outro mundo possível). Era uma quinta-feira. Na segunda-feira seguinte, fui à universidade e passei ao lado do meu "odioso" colega com o livro debaixo do braço e perguntei-lhe se havia lido minha nova obra. Ele respondeu:
- Li e não gostei.
- Ah, inveja sua! Você não gostou porque não lançou nada este ano.
- Não. Não gostei daquela discussão que você faz da resignação como cumplicidade. Eu não achei completa.
- Isso aí é porque não foi você que escreveu.
Mas o que eu fiz quando cheguei à minha sala? Corri a ler o texto que ele apontou. É evidente. Eu o respeito, ele me faz crescer. Ele me melhora. No dia em que ele morrer - o desejo é que assim seja, claro - estarei segurando a alça do caixão dele no cemitério e chorando. Porque no dia em que ele morrer eu vou ficar menos, vou ficar menor.
Tomemos, pois, muito cuidado com a satisfação. A satisfação paralisa, a satisfação adormece, a satisfação entorpece. A satisfação pode nos deixar num estado de tranquilidade. Sabe o que é o oposto? O que nos renova? É a outra pessoa. A que nos desafia a ser diferente, a que nos obriga a pensar de outro modo. Cuidado com gente que concorda com tudo o que você faz. Gente assim:
a) não gosta de você;
b) começou a se preparar para lhe derrubar;
c) lhe despreza;
d) não se importa com você;
e) todas as alternativas acima.
Porque quando você tem verdadeira consideração com a outra pessoa, você a corrige, discorda dela. Afinal de contas, nenhum de nós é imune a erro.
# QUAL É A TUA OBRA? # by Mário Sérgio Cortella
quarta-feira, janeiro 04, 2012
Na dúvida, duvide!
"Nós temos um grande temor - no Brasil, especialmente - em relação à ideia de dúvida. Por uma deformação que em parte teve origem na escola. O professor ou a professora terminava a aula e dizia assim, geralmente em tom ameaçador: 'Alguma dúvida?'.
E ninguém se manifestava. Vez ou outra, alguém levantava a mão e o resto da classe caía matando. Entretanto, a inteligência está em ter dúvidas e não em não tê-las. Não haveria o avanço das ciências, dos negócios, da economia, da vida pessoal se a gente não tivesse dúvidas.
Mas o arrogante não duvida de nada, nunca! Ele é cheio de certezas."
# QUAL É A TUA OBRA? # by Mário Sérgio Cortella
terça-feira, janeiro 03, 2012
A compaixão de Jesus
Pensar como Cristo é ter a atitude relacional que Jesus teve com os seus discípulos. Sua atitude foi lindamente expressa para mim no último outono pela Sleepy Hollow Village, às margens do rio Hudson. A única orientação do nosso guia era: "Por favor, sejam gentis com os cordeiros. Eles não se aproximarão se vocês os amedrontarem."
Quando os olhos de Jesus observavam as ruas e ladeiras, ele sentia compaixão porque as pessoas estavam desorientadas. Ele lamentou por Jerusalém. Suas palavras não vinham carregadas de repreensão e humilhação, castigo e moralismo, acusação e condenação, ridicularização e depreciação, ameaça e chantagem, avaliação e rotulagem. Sua mente era constantemente habitada pelo perdão de Deus. Ele tomou a iniciativa de procurar os pecadores e justificou sua incrível facilidade e familiaridade com eles por meio de parábolas de misericórdia divina.
À mulher flagrada em adultério, nem mesmo perguntou se estava arrependida. Nem exigiu uma firme decisão de se corrigir. Não lhe fez uma preleção sobre as severas consequências de uma futura infidelidade. Ele viu sua dignidade como ser humano prestes a ser destruída pelos presunçosos fariseus. Depois de lembrá-los de sua participação na culpa da mulher, ele olhou para a mulher, a amou, perdoou e advertiu para que não pecasse mais.
# CONVITE À LOUCURA # by Brennan Manning
Acredito que quando exercemos a compaixão divina, semelhantemente a Jesus, o Espírito se encarrega de promover a transformação na vida daquele a quem tudo foi perdoado. Percebendo-se objeto de amor ao invés de ódio, julgamento, acusação, escárnio, o perdoado abre o seu coração para abandonar suas condutas e entregar-se à Vida.
segunda-feira, janeiro 02, 2012
Viver x Andar com Deus
Hoje meditando no livro de Gênesis, capítulos 4 e 5, um verso no capítulo 5 chamou minha atenção mais do que qualquer outra coisa:
"Enoque andou com Deus; e já não foi encontrado, pois Deus o havia arrebatado." v.24
O capítulo 5 descreve a descendência de Adão, citando a idade que cada um tinha quando gerou filho e quanto mais eles viveram após isso, dando ao final a soma dos seus dias.
Embora, confesso, eu sempre pulo esses capítulos de datas e nomes e filhos e genealogia, porque às vezes parece que nunca vai acabar e a leitura fica muito cansativa e não há nenhuma aplicação prática nelas, eu resolvi ler esse relato. E assim que o autor, ao falar de Enoque, poderia ter dito "Depois que gerou Matusalém, Enoque viveu 300 anos, e gerou outros filhos e filhas", como ele o disse sobre todos os outros descendentes de Adão que havia citado anteriormente.
Mas a vida de Enoque o destacou dos demais, de modo que dele foi dito não apenas o quanto viveu em dias, mas o tempo em que andou com Deus, e não somente isso, os outros descendentes viveram mais de 800 anos, mas Enoque desfrutava de tanta intimidade com Deus que Deus o chamou para si. Que honra!!!
Andar com Deus é muito mais do que simplesmente viver!
É o que eu quero!
É o que eu quero!
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