quinta-feira, outubro 06, 2011

Remédio para memória

"Pensei nas minhas visitas a Kabati com Junior e nos passeios com nosso avô nas trilhas em torno das plantações de café da aldeia. Ele mostrava folhas medicinais e árvores cujas cascas eram importantes para medicamentos. A cada visita, nosso avô sempre nos dava um remédio especial que supostamente aumentava a capacidade do cérebro de receber e armazenar conhecimento. Ele fazia esse remédio escrevendo uma prece em árabe em uma espécie de lousa, com tinta feita de outro tipo de medicamento. As palavras eram então lavadas da lousa e aquela água, que chamavam Nessie, era colocada em uma garrafa. Levávamos a garrafa conosco e devíamos escondê-la para beber em segredo antes dos testes na escola. O remédio funcionava. Durante o ensino fundamental e parte do ensino médio, eu conseguia me lembrar de tudo que me era ensinado. Às vezes funcionava tão bem que conseguia visualizar minhas anotações e tudo que estava escrito em cada página dos meus livros. Era uma das muitas maravilhas da minha infância. Até hoje tenho excelente memória fotográfica, que me permite lembrar detalhes do dia-a-dia em minha vida, permanentemente."



(Extraído do livro Muito longe de casa – memórias de um menino soldado – Ishmael Beah)

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