Certa noite, em Nova York, do lado de fora do Schubert Theater, durante o intervalo de uma peça, eu, alguns cavalheiros de smoking e umas senhoras em seus vestidos longos estávamos numa intensa discussão a respeito da influência de Schopenhauer sobre o Teatro do Absurdo de Samuel Beckett. Eu estava prestes a fazer uma intempestiva observação que evitaria mais discussões sobre o assunto por, pelo menos, uns cem anos, quando uma senhora idosa vendendo o jornal Variety se aproximou. Ela calçava tênis e usava um boné de taxista. Joguei uma moeda em sua mão e peguei o jornal.
- Posso falar com o senhor um minuto? - ela implorou.
Naquele tempo, eu sempre usava o colarinho clerical. Sabia que não poderia me distinguir por minhas virtudes, mas poderia fazê-lo por minha roupa. Usava o colarinho romano quando tomava banho e o colocava sob o pijama ao dormir.
- Sim - respondi de forma ríspida. - Espere um minuto.
Ao me voltar para o grupo de amigos, que estavam ansiosos, esperando meu contragolpe final, ouvi a senhora dizer:
- Jesus não teria falado assim com Maria Madalena.
Ela desapareceu rua abaixo. A magnitude do que havia ocorrido começou a me corroer durante a continuação do teatro. Estivera tão preocupado com o meu status que tratei a mulher como uma máquina de vender jornal. Não demonstrei nenhuma consideração pelo serviço que ela me prestava, nenhum interesse por sua vida e tive uma espantosa falta de apreço por sua dignidade pessoal.
A preocupação com minha soberba, somada à falha em tratá-la com amor afetuoso, imbuído de respeito pela santidade de sua personalidade única, exacerbou seu sentimento de inutilidade e, além disso, prejudicou sua auto-estima. Seu autoconceito se formou pelo modo como ela viu a si mesma refletida nos olhos de outras pessoas. Se viesse à igreja no domingo e eu estivesse no púlpito, exortando-a a amar a Deus acima de todas as coisas... quanta hipocrisia do homem que ajudou a minar sua capacidade de amar alguém. Uma humanidade retraída tem uma capacidade diminuída de receber os raios do amor de Deus.
# CONVITE À LOUCURA # by Brennan Manning
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