No meu modo de ver, o mundo ocidental capitalista produtivo material altamente eficaz caiu numa armadilha: especializou-se nos "comos" e deixou de lado os "porquês". E aí temos um adensamento da insatisfação, do incômodo e, especialmente, do desespero.
Essa é uma questão que os líderes não podem perder de vista. Mostrar para as pessoas qual é o resultado da obra e identificar essa obra como magnífica. Se assim não fosse, não haveria quem tocasse címbalo em orquestra.
Na Abertura 1812, de Tchaikovsky, por exemplo, o instrumentista do címbalo toca pouco durante a peça inteira. E ele vai para casa e fala o quê para a esposa? Que durante a execução do concerto ele fez "pim" três vezes? Claro que não. Ele fala que participou de um concerto. Agora se ele perceber que as pessoas acham que ele só toca címbalo e que, aliás, é altamente substituível, se ele perceber que o spalla (primeiro violino) da orquestra o despreza, ele ficará propenso a ter dois tipos de comportamento: não ter lealdade à orquestra ou atravessar durante a execução, tocar na hora errada. O tocador de címbalos precisa ter clareza de que não foi lá bater o prato três vezes, mas, sim, de que estava compondo uma obra coletiva.
O Ocidente acabou escorregando nesse canto e colocou as pessoas como insignificantes tocadoras de címbalos, em vez de executoras de uma grande obra, na qual um toca címbalos, o outro, violino e, o outro, fagote. E a nossa sociedade tem muito mais tocador de címbalos do que spalla de orquestra. Eu, tocador de címbalos, quero me entender como membro respeitável de uma orquestra: isso é essencial...
# QUAL É A TUA OBRA # by Mário Sérgio Cortella
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