"Há gente que se preocupa demais.
Há gente que não quer nem saber.
O que acho bom é que se multiplicam os que resolvem questionar e se questionar. Querem melhorar sua vida. Um centrímetro que seja, já é alguma coisa.
A maioria dá de ombros dizendo que é isso mesmo, as coisas são assim, aqui é assim, por toda parte está ficando assim, e afinal "não tem problema". E vão se refugiar na tevê plana, na internet, na droga, na bebida, na briga, no sono da depressão ou no saltitar das baladas eternas.
Não tem problema, a generalizada quebra de autoridade, a começar por muitos líderes e ocupantes de altos cargos, que perderam a credibilidade e nem se procupam em se reconstruir. Tudo numa boa, porque aqui é assim. Sem estresse, que dá rugas, sem exageros ou a gente vira um chato. Confundimos autoridade com dominação, quando deveríamos pensar em autoridade como ordem, gestão que evita a confusão e o caos -- portanto, algo positivo que nos permite viver melhor, crescer mais, ocupar com mais liberdade nossos espaços.
Que povo estamos nos tornando? Fingimos ignorar a corrupção impune, ou a gente reclama um pouco, mas logo esquece, é a pizza, o chopinho, o show, o shopping ou as contas atrasadas. A gente se acomoda, se distrai, olha para o outro lado, porque a capacidade de reagir nos foi lentamente, subliminarmente, retirada.
Não por sermos um povo acomodado ou superficial, mas megulhado num estado geral de desinteresse -- e isso contagia feito uma nova doença, uma gripe de derrotados. Algo negativo e sombrio que nem os trios elétricos conseguem disfarçar.
É frágil uma democracia na qual pobres e ricos, jovens e velhos, reagem com um dar de ombros quando se fala nesses desmandos, os conhecidos e os obscuros. A gente sabe ou imagina, e comenta como se fosse engraçado: vai ficando difícil acreditar na política, na justiça, nas instituições. Mas não tem problema.
Penso que tem problema. Tem muito problema. Não é normal, não é assim. A falta de autoridade, de decência, de cuidados, de consciência, contamina feito uma doença maligna tirando-nos discernimento e capacidade de julgar. Fingimos não saber, fingimos nem ligar. Aos mais simples, como às crianças e jovenzinhos, é repetido que está tudo bem, tudo em ordem. "Não tem problema."
Talvez enxerguemos como uma paisagem criada no computador o complicado real que não é colo de mãe nem mão de amigo, mas exige quase heroísmo para ser encarado. Ou temos medo de que ele nos reduza a pó, com a mesma velha cantilena: Não tem problema.
Com esse clichê apaziguador, que funciona como uma droga, nessa alienação geral, quem sabe a gente acaba imaginando que vive num universo virtual, onde problemas se resolvem com o toque de uma tecla. Assim anestesiadose distraídos brincamos até que alguém, talvez distraído, faça um clique e sem querer nos delete para todo o sempre.
E não vai haver problema: ninguém há de notar a nossa falta."
# A RIQUEZA DO MUNDO # by Lya Luft
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